sábado, 17 de março de 2012

Matthieu Ricard (França, 1946)


“Viver intensamente” tornou-se o leitmotiv do homem moderno. Trata-se de uma hiperatividade compulsiva sem qualquer pausa, sem brecha de tempo não-agendado, por medo de se encontrar consigo mesmo. Pouco importa o significado da experiência, desde que ela seja intensa. Vêm daí o gosto e a fascinação pela violência, a exploração, a excitação máxima dos sentidos, os esportes radicais. É preciso descer as cataratas do Niágara dentro de um barril, só abrir o pára-quedas a alguns metros do solo, mergulhar a cem metros de profundidade em apnéia. É preciso arriscar a vida por aquilo que não vale a pena ser vivido, superar-se para ir a lugar nenhum. Então, liguemos a todo volume cinco rádios e dez televisores ao mesmo tempo, batamos a cabeça no muro e rolemos na graxa e no óleo diesel. Isso sim é viver plenamente!

Sentimos que a vida sem atividade constante seria fatalmente insípida. Amigos meus que foram guias em excursões culturais na Ásia contaram-me que seus clientes não conseguiam suportar a menor brecha no itinerário. “Não há mesmo nada agendado entre as cinco e as sete?”, perguntava eles, ansiosos.

Temos, ao que parece, muito medo de olhar para nós mesmos. Estamos completamente focados no mundo exterior, da maneira como é experienciado pelos cinco sentidos. Parece ingênuo acreditar que uma busca tão febril de experiências intensas possa levar a uma qualidade de vida rica e duradoura.

Se dedicamos algum tempo para explorar nosso mundo interior, só o fazemos sonhando acordados, fixados na imaginação e no passado, ou fantasiando infinitamente sobre o futuro.

Um sentimento genuíno de realização, associado à liberdade interior, também pode oferecer intensidade a cada momento da vida, mas de um tipo muito diferente. Trata-se de uma experiência cintilante de bem-estar interior, em que brilha a beleza de cada coisa. Para que isso ocorra é preciso saber desfrutar o momento presente, com vontade de alimentar o altruísmo e a serenidade, trazendo para o amadurecimento a melhor parte de nós — modificar a si mesmo para melhor transformar o mundo.


sábado, 21 de janeiro de 2012

"Se você não consegue parar de se preocupar com alguma coisa do passado ou que possa acontecer no futuro, troque seu foco para a inalação e exalação de sua respiração. Ou recite este mantra " om mani padme hum", que se pronuncia " om mani peme hum". 
Como a mente não pode concentrar-se em duas coisas simultaneamente, qualquer uma dessas meditações faz a preocupação desaparecer gradualmente. Dalai Lama" 
Traduzido por - Carlos Ernesto de Oliveira praticante budista e aluno do Lama Padma Samten

sábado, 7 de janeiro de 2012


Se você quer milagres, 
não procure o Budismo:
O supremo milagre para o Budismo 
é você lavar seu prato depois de comer.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

CONSCIÊNCIA PURA


A experiência comum da vida é estar perdido numa confusão de pensamentos, emoções, sensações e outras experiências, e nem sequer saber que se está perdido, ou simplesmente ter altos e baixos o tempo todo, sempre a ponto de nos sentir bem ou felizes, acreditando que irá durar para sempre, para então ver sempre truncadas nossas esperanças.

Quando acreditamos que nossa felicidade depende dos sentimentos, emoções, sensações ou outras experiências, a nossa vida toda é uma confusão de altos e baixos; sempre buscando alguma espécie de antídoto, remédio ou fantasia curativa que irá de alguma maneira terminar o ciclo, de nunca nos sentirmos completos.

Se olharmos nossa própria vida, em nossa própria experiência, poderemos ver que as diversas coisas que buscamos: dinheiro, poder, prestígio, relações com determinadas pessoas, lugares e coisas; se realmente examinarmos nossa própria experiência, veremos que alcançar estas coisas nunca levou à felicidade.

Não importa o que logremos, seja um trabalho perfeito, o carro perfeito, o par perfeito, a comida perfeita, as férias perfeitas, o lugar perfeito para viver, o governo perfeito, no qual viver, não importa o que seja, se examinarmos nossa própria experiência, veremos que isso não assegurou nossa felicidade. Talvez vivamos em um país onde o governo é imperfeito; quase todo mundo sente isso nos dias de hoje.

O constante afã de perfeição seja conosco mesmos ou com os demais, não passa de um jogo. É um jogo de altos e baixos, de confusão, de nunca nos sentirmos completos. Quando dependemos do que pensamos ou dos nossos estados emocionais, sensações ou outras experiências estas são de alguma maneira muito sólidas, muito reais e nosso bem estar depende de sua existência real e sólida. Esta falsa suposição se deve a não entender a Fonte, a não nos darmos conta que todas as percepções aparecem em um espaço cristalino da consciência sem mancha.

Ao atentamente confiar na consciência em lugar de enfatizar os pontos de vista que aparecem, a consciência se torna cada vez mais evidente. Sua perfeição se torna cada vez mais evidente. Todas as percepções, todos os pontos de vista, aparecem na visão da consciência, nítida e cristalina que tudo abarca.

Tal como numa bola de cristal, muitas imagens aparecem e parecem estar sempre mudando. A pureza da bola de cristal nunca muda e o que aparece é inseparável de sua pureza. Assim também é com nossa consciência. É uma fonte de estabilidade mental e emocional indestrutível. Buscar estabilidade mental e emocional nas imagens que aparecem numa bola de cristal seria uma insensatez. Nunca nos ocorreria encontrar indestrutibilidade em nenhuma destas imagens.

As percepções, os pensamentos, as emoções ou os pontos de vista, são como o que aparece numa bola de cristal. Ela vai refletir instantaneamente o que existe, onde se coloca. Se agora está sobre o papel laranja, vai refletir a cor laranja do meu ângulo de visão. Parece que o laranja está na bola de cristal. No entanto, a pureza do cristal nunca muda. Também é assim com nossa consciência e todas as suas incontáveis, incessantes e imprevisíveis manifestações. Todas aparecem como imagens numa bola de cristal, como imagens num sonho, ou como num reflexo; sem nenhuma solidez, sem nenhum fundamento próprio.

Confiar na consciência por breves momentos, repetidos muitas vezes até se tornarem automáticos, é introduzir-nos em nossa verdadeira natureza, praticando em nossa natureza pura e sem mancha. Quando nos treinamos em nossa natureza pura e sem mancha, em lugar de praticarmos na falsa solidez e realidade dos pensamentos, emoções, sensações e outras experiências momentâneas. Começamos a experimentar nossa própria pureza, a indestrutibilidade de nossa própria consciência.

Relaxar por um momento é experimentar a consciência, isto é, como por exemplo, quando trabalhamos no jardim ou saímos para dar uma volta enérgica. Se trabalharmos no jardim o dia inteiro, ou fizermos uma forte caminhada, uma excursão, ao voltar nos sentamos e nos relaxamos completamente. O trabalho no jardim, a caminhada, terminaram. Simplesmente nos relaxamos completamente. Isto é relaxar a consciência em seu estado puro e cristalino.

A consciência está presente em tudo o que se manifesta. A bola de cristal reflete tudo o que aparece nela em qualquer momento, e não importa o que apareça; segue sempre cristalina, sem mudar. Não podemos mudá-la de maneira alguma. Ao confiar nas manifestações passageiras, começamos a crer que elas, de alguma maneira vão se solidificar em bem-estar e perfeição; no entanto, isto nunca ocorre. Depois de um curto tempo nessa busca insensata, deveria tornar-se claro que é assim.

Quando permitimos que nossas experiências nos governem, estamos sempre evitando ou consentindo o que está aparecendo, ou tentando substituí-lo com alguma outra coisa. Não obstante, quando confiamos na consciência em lugar de enfatizar todas as percepções, nos familiarizamos com nossa consciência cristalina. Familiarizamo-nos com o que é o fundamento. Deixamos de nos treinar na interminável busca da experiência perfeita. Em vez disso, confiamos “naquilo que não se pode experimentar”. Ao confiar na consciência, a consciência confia em si mesma.

Assim, não temos que nos livrar de nenhuma entidade ou experiência, uma vez que a consciência é a raiz de toda experiência! Não temos que nos livrar de experiência alguma; não existe experiência a evitar, consentir, nem substituir, para ter bem estar. Se sentirmos que temos que administrar todas as experiências, as experiências tornam-se nossas inimigas. Sejam boas ou sejam más, tornam-se nossas inimigas porque estamos constantemente desejando ter mais das boas e menos das ruins. Graças ao sempre presente poder da consciência, isto terminou! O que quer que apareça, aparece numa claridade cristalina. O que quer que ocorra, ocorre numa claridade cristalina.

Tudo tem sua própria luz. Consciência e claridade são inseparáveis. Consciência e claridade radiante são inseparáveis. Isto se torna cada vez mais óbvio em nossa própria experiência. Não há separação alguma entre consciência e claridade luminosa, assim como não existe separação entre o cristal e sua luminosidade. É impossível separar a bola de cristal de sua claridade luminosa. Da mesma maneira, é impossível separar a consciência de sua claridade. Sabedoria é saber que os fenômenos não são muito sólidos, muito reais. São como um sonho, um eco, um reflexo, algo que aparece numa bola de cristal. Não têm solidez. Não têm uma base própria. Poderíamos buscar eternamente, mas jamais encontraríamos um fenômeno com existência própria.

O que é que isso diz sobre nós mesmos, então? Sabedoria é saber que a consciência é a base. A sabedoria de saber que os fenômenos não têm uma natureza independente, unida a breves momentos de consciência repetidos muitas vezes, é a instrução essencial. Nada mais é necessário. Qualquer complicação e verbosidade são superadas. O caprichoso empenho nos pontos de vista cessa por completo em uma radiante luminosidade que vê penetrantemente através de tudo, e eclipsa tudo o que aparece.

Candice O’Denver

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lendas


Conta uma lenda do budismo chinês que um homem de meia idade tinha duas esposas. Um dia, indo visitar a mais jovem, esta lhe disse: "Eu sou moça e vós sois velho; não gosto de morar convosco. Ide habitar com vossa esposa mais velha". Para poder ficar, o homem arrancou da cabeça os cabelos brancos. Mas, quando foi visitar a esposa mais velha, esta lhe disse: "Eu sou velha e tenho a cabeça branca; arrancai, pois, os cabelos pretos que tendes". Então o homem arrancou os cabelos pretos para ficar de cabeça branca. Como repetisse sem tréguas tal procedimento, a cabeça tornou-se-lhe inteiramente calva. A essa altura ambas as esposas acharam-no horrível e ambas o abandonaram.

Em tempos idos esse homem tinha sido um cão que vivia entre dois templos, um dos quais se erguia a leste e outro a oeste do rio. Ao ouvir soar a ganta (sineta de bronze utilizada na China durante as cerimônias religiosas), dirigia-se logo ao templo donde partia o som, para ali obter comida. Ora, um dia fizeram vibrar a placa sonora simultaneamente nos dois templos. O cão lançou-se a nadar para atravessar o rio; mas enquanto ia para oeste, veio-lhe o receio de que a comida do templo do leste fosse melhor; e, quando voltava em direção a leste, receou que a do templo do oeste fosse mais saborosa. Nessas hesitações, acabou perecendo afogado no meio do rio.

domingo, 1 de janeiro de 2012

UNIÃO SUJEITO & OBJETO


Flávio Shunya

Conta-se que um célebre mestre zen da dinastia T’ang, Nan Ch’üan, declarava, mostrando uma flor aberta no pátio: “As pessoas comuns vêm esta flor como se estivessem imersas em um sonho”. A flor, tal como a vemos efetivamente no jardim, deve assemelhar-se a uma flor vista durante um sonho, basta-nos sair do sonho para ver a flor tal como é em si mesma realmente. Isto quer dizer, simplesmente, que o sujeito deve realizar a todo custo uma transformação pessoal absoluta, se quiser contemplar a realidade das coisas. Porém, de que gênero de transformação se trata? E qual é a realidade das coisas, vistas por nós depois dessa transformação?

O que Nan Ch’üan quer dizer está claro: uma flor, tal como a vemos em condições normais, é um objeto que se encontra diante de um sujeito que o percebe. Esse é o sentido da expressão “uma flor vista em um sonho”. A flor está aqui representada como algo diferente do ser humano que a contempla. A flor, em sua realidade é, no entanto, para Nan Ch’üan, uma flor que não-é, uma flor que não pode distinguir-se do ser humano que a contempla: do sujeito. Trata-se aqui, pois, de um estado que não é nem objetivo nem subjetivo, porém que é ao mesmo tempo subjetivo e objetivo: um estado no qual o sujeito e o objeto, o ser humano e a flor, se fundem de modo indescritível em uma unidade absoluta. Ao menos, com a finalidade de compreender um pouco o cerne do problema, teremos que colocar em seu contexto o lugar exato das palavras de Nan Ch’üan no conhecido livro de budismo zen, o “Pi Yen Lu”. Ali podemos ler o seguinte:

Um dia, o grande governador Lu Kêng encontrava-se conversando com Nan Ch’üan, quando Lu fez a seguinte observação: “Seng Chao disse um dia: ‘O céu e a terra (quer dizer, o universo inteiro) têm a mesma raiz que meu próprio eu e todas as coisas são uma só comigo’, para mim, isto é muito difícil de compreender”. Então, apontando uma flor com o dedo, Nan Ch’üan declarou: “As pessoas comuns vêm esta flor como se estivessem imersas no meio de um sonho”. 

No contexto pode-se compreender a intenção de Nan Ch’üan. É o mesmo que houvesse dito: “Observa esta flor aberta no pátio. Pelo fato mesmo de sua existência, está atestado que todas as coisas formam uma só coisa com o ser que nós somos na Unidade Fundamental da Realidade Última”. A verdade está aí em toda a sua pureza, plenamente aparente. Desvela-se, a cada momento através de cada coisa particular, de modo claro e sem equívocos. Porém as pessoas comuns não possuem o olho em condições de ver a realidade desnuda. Todas as coisas são observadas como através de véus.

Como as pessoas comuns vêm tudo através dos véus do seu próprio ego relativo e determinado, tudo quanto vêem é percebido como em um sonho. Porém elas mesmas estão convencidas de que a flor, tal como efetivamente a contemplam enquanto “objeto” no mundo exterior, é a realidade. Para estar em condições de afirmar que tal visão da flor está absolutamente afastada da realidade até o ponto de ser quase um sonho, temos que transformar em outro o eu empírico. Somente então se poderá dizer, com o monge Chao, que o sujeito e o objeto se confundem de um modo infinitamente sutil e delicado em um só e, finalmente, se incorporam no fundo original do Vazio.

[...]

Extraído do livro: EL KÔAN ZEN de Toshihiko Izutsu
Tradução p/português: Flávio Capllonch Cardoso

Shunya

Começarei assim o ano de 2012...
O grupo SHUNYA foi criado no Facebook em  14 de Novembro de 2011 às 19:15 pelo meu pai. Pretendo resumir aqui alguns textos e/ou mensagens para um melhor aprendizado de todos os membros que  totalizam hoje 211 pessoas.

Flávio Shunya - Descrição do grupo: "Este é um grupo de pessoas que em sua maioria seguem e praticam o Dharma de Budha. Não é um grupo sectário, mas principalmente daqueles que buscam conhecer-se. Um ensinamento do grande Mestre Zen, Eihei Dögen define bem a nossa proposta:

“Estudar o budismo é estudar a si mesmo;
Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo;
Esquecer-se de si mesmo é estar identificado com todas as coisas.
Estar identificado com todas as coisas é tornar-se a própria VERDADE”.

Sejam bem-vindos os que buscam a resposta do koan: "Quem sou eu?".

Boa leitura!

Enquanto nossos mestres preparam seu ensinamentos quero colocar um texto.
Não! Não é da Joko. Por incrível que pareça!
E um poema de um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
Para mim o que se iluminou.


Aí vai:

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Visitem também a nossa página: www.shunya.com.br

Buda: Um príncipe encontra a Perfeição



Buda percorria certa vez um caminho quando um homem, percebendo que estava diante de um ser incomum, perguntou-lhe: “Você é um deus?” E o Buda respondeu: “Não”. “É um demônio?” E o Buda respondeu: “Não”. “É um homem?” E o Buda respondeu: “Não”. “Quem é você, então?”
E o Buda respondeu: “Eu estou acordado”. 
Esta pequena lenda talvez resuma todo o sentido da vida deSidarta Gautama, o Buda, título que significa justamente “O desperto” ou “O iluminado”. Entender o que esse despertar ou essa iluminação querem dizer, porém, é algo que, segundo seus seguidores, está além das palavras. 
Também chamado Sakyamuni, que quer dizer “O santo do clã dos Sakya”, ele nasceu provavelmente no século VI a.C. no principado indiano de Kapilavastu, na região da cordilheira do Himalaia, no sul do atual Nepal. Mais ainda do que a de Cristo, sua biografia está de tal forma amalgamada com o mito que se torna praticamente impossível separar vida e lenda. Até porque, de acordo com os budistas, isso nem seria desejável, pois o mito é considerado uma forma perfeitamente válida de conhecimento. O próprio 
Buda empregou largamente o discurso mitológico em suas falas destinadas a um público mais amplo, enquanto em comunicações mais restritas empregava uma requintada linguagem filosófica. Seu pai, Sudohodana, era o rajá de Kapilavastu, o que significa queSidarta nasceu príncipe. Sua casta de origem, a dos guerreiros, não ocupava, entretanto, o topo da rígida hierarquia indiana. O poder pertencia aos brâmanes, os sacerdotes. 
Quando Sidarta nasceu, a casta dos guerreiros contestava a estrutura social dominada pelos brâmanes. O nome da localidade natal de Sidarta, Kapilavastu, significa “Morada de Kapila”. Fundador do Sankhyan, sistema filosófico que influenciou fortemente o budismo e também o ioga clássico, Kapila dizia que uma das mais perniciosas servidões humanas é a daqueles que tem de dar presentes aos sacerdotes. Os ecos do pensamento desse antecessor estão claramente presentes na doutrina do Buda, que condenou o sistema de castas da Índia. Por unta série de complexas razões históricas — a principal delas, a invasão muçulmana ocorrida no século XII —, o budismo não se enraizou na Índia, embora tivesse conquistado espiritualmente quase todo o Extremo Oriente. 
Destino de certa forma semelhante ao do cristianismo, que não foi aceito pelos judeus, mas espalhou-se pelo mundo. Também como na biografia mítica de Cristo, a concepção e o nascimento de Buda estão cercados de condições sobrenaturais. Sua mãe, Maya — na mitologia, o mesmo nome da força mágica que cria o universo ilusório —, sonhou que entrava em seu flanco um elefante branco com a cabeça cor de rubi e seis presas. Desse encontro Sidarta foi concebido. 
A imagem tem evidentes conotações simbólicas. O elefante, na Índia, representa a mansidão; seis, o número de presas, simboliza os sentidos do Universo — norte, sul, leste, oeste, para cima e para baixo. No corpo de sua mãe, o futuro Buda — o Bodhisatva — espera rezando a hora de seu nascimento, que se dará pelo flanco direito de Maya, sem entretanto lhe causar mal. Quando nasce, uma série de marcas evidenciam nele o “incomparável”, conforme proclama o vidente Asita: tem cor dourada, altura igual à extensão dos braços abertos, uma coroa orgânica no alto do crânio, pestanas de boi, quarenta dentes alvíssimos e unidos, membranas interdigitais e centenas de formas desenhadas nas plantas dos pés. A narrativa tradicional descreve o Buda como belíssimo. 
A imagem popular que se tem dele no Ocidente, que o apresenta como um homem obeso, se deve a uma confusão entre a sua figura e a de uma divindade mitológica chinesa. Maya morreu sete dias depois do parto e Sidarta foi criado por uma tia, Mahaprajapati, que se tornaria a primeira monja budista. Sabendo que estava destinado a seu filho um futuro excepcional, diz ainda a lenda, Sudohodana fez construir para ele três palácios, dos quais excluiu tudo o que pudesse lembrar os males do mundo. 
A narrativa indiana — que se caracteriza por exagerar os fatos, sem maiores preocupações com o que no Ocidente se chama verdade objetiva — se excede em exuberância ao descrever o fausto da juventude do futuro Buda. Seu harém tinha 84 mil mulheres e ele era o primeiro em todas as competições, que incluíam modalidades tão diversas como caligrafia e natação, gramática e corrida, botânica e luta. Aos 19 anos, Sidarta se casa com sua prima Yasodhara e vive mais dez anos nesse mundo de idílica felicidade e requintada satisfação dos sentidos. Da união com Yasodhara, nasce seu filho Rahula. Mas essa vida privilegiada seria bruscamente sacudida, segundo a tradição, em três passeios que Sidarta fez fora dos limites de seus palácios. 
Na primeira, viu um homem de aparência decrépita que precisava apoiar-se num bastão para caminhar. O cocheiro deSidarta explica que se trata de um velho e que o destino de todos os homens é se tornar um dia como ele. Na segunda, vê um homem com o corpo corroído pela lepra; o cocheiro explica que é um doente e que qualquer pessoa está sujeita a esse mal. Na terceira, vê um defunto transportado em cortejo fúnebre; o cocheiro explica que é um morto e que a morte é o fim para o qual caminham todos os seres vivos. O impacto dessas três visões tumultua enormemente os pensamentos de Sirdarta e ele decide partir em busca do esclarecimento. Deixa para trás os palácios, as mulheres, o filho e cavalga rumo ao Oriente. 
Como São Francisco de Assis na Itália do século XIII, se desfaz das roupas. Entrega seu cavalo ao criado que o acompanhara e corta os cabelos. Sozinho, decide iniciar uma nova vida. Tem 29 anos de idade. Um asceta, ou, segundo a lenda, um anjo que assumiu a forma de asceta, lhe entrega os únicos pertences pessoais a que futuramente terão direito os monges mendicantes budistas: o traje amarelo, o cinto, a navalha para raspar os cabelos, a agulha, a tigela para esmolas e a peneira para filtrar a água.Sidarta parte em busca dos grandes mestres espirituais da época, homens como Alara Kalama eUddaka Ramaputta, mas estes não conseguem satisfazer suas dúvidas. 
A tradição procurará apresentar todos os elementos essenciais da doutrina budista como uma descoberta pessoal do Buda, decorrente de sua iluminação. Mas. se há elementos que realmente lhe são próprios e inconfundíveis, há também a influência da filosofia Sankhyan e do hinduísmo, expresso nos Vedas, a antiquíssima coleção de textos religiosos da Índia. 
Desta influência e também de outras sínteses posteriores se formaram a cosmologia e a mitologia budista. Abandonando seus mestres, Sidarta refugiou-se por seis anos no bosque de Sena, território de Magadha. É uma região escolhida pelos eremitas para afastar-se dos apelos do mundo. Ali, junto a cinco companheiros, Sidarta se dedica à automortificação. Faz jejuns prolongados; quando come, sua alimentação se resume a frutos; permanece dias seguidos imóvel em posição de meditação, castigado pela chuva ou pelo sol. Enfraquecido física e mentalmente, percebe que essas práticas não o aproximam do que mais procura — as respostas para os sofrimentos do mundo. Deixando os companheiros, banha-se no rio Nairanjana e se fortalece com o alimento oferecido por uma aldeã. 
Depois, senta-se à sombra de uma figueira sagrada para meditar. Ali vive a experiência da iluminação que lhe teria dado consciência plena da verdade absoluta. Segundo o relato tradicional, ele “vê” simultaneamente os infinitos mundos do Universo, suas infinitas encarnações anteriores e as de todos os outros seres, a concatenação de todas as causas e efeitos. Ao amanhecer, intui as Quatro Verdades Nobres, as colunas-mestras do budismo
1) o sofrimento é inerente a toda forma de existência; 
2) a ignorância é a origem do sofrimento; 
3) pela extinção da ignorância é possível extinguir o sofrimento; 
4) o caminho que leva a isso é eqüidistante da entrega aos prazeres e apelos do mundo e dos rigores do ascetismo e da automortificação. Buda vai referir-se a esse caminho médio com a metáfora de um alaúde, cujas cordas não podem estar nem muito frouxas nem muito tensas para que se produza o som adequado. 
Ela se expressa na Nobre Senda Óctupla: compreensão correta, pensamento correto, palavra correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção correta, concentração correta. São oito atitudes de meditação cujo entendimento pleno não pode ser dado por meio de palavras. Por essa senda se chega à extinção da ignorância, que não é associada no budismo à prosaica falta de informações, mas ao desconhecimento do sentido profundo da existência. Depois da iluminação,Sidarta se tornou o Buda e também adotou o título de Tatágata — 
“Aquele que veio da verdade”. Procurou seus cinco ex-companheiros de ascetismo e os converteu numa única pregação. Em seguida converteu os irmãos Kassapa, adoradores do fogo, e os brâmanes Sariputra e Moggollana, que serão seus mais importantes discípulos. É o início da Sangha, a comunidade budista, que justamente com o Buda e o Dharma, a doutrina, forma as Três Jóias do budismo
Diz a lenda que o Buda comunicou sua doutrina também aos nagas, serpentes com face humana que habitam o mundo subterrâneo, e aos deuses dos vários céus, que, apesar de suas vidas imensamente longas, ou talvez exatamente por causa delas, são incapazes de chegar sozinhos à iluminação. 
Durante 45 anos, o Buda perambulou ensinando. A região nordeste da Índia, que acolheu em primeiro lugar os seus ensinamentos, vivia então uma época de crise. Não havia centralização política: a antiga unidade tribal fora rompida pelo surgimento e expansão de vários pequenos reines. A religião predominante, o bramanismo, que cultuava um deus criador — Brahma —. era contestada por numerosos movimentos organizados em torno de mestres carismáticos. Mais do que tudo, os unia uma oposição ao sistema de castas que dividia a sociedade indiana e assegurava os privilégios da elite sacerdotal. O terreno era propício à aceitação do budismo
No rastro da pregação de Buda formou-se uma numerosa comunidade de monges e monjas que renunciaram aos bens materiais e às atividades profissionais para viver de esmolas, meditar e pregar a doutrina. Formou-se também uma vastíssima comunidade de fiéis leigos de ambos os sexos. Entre os convertidos pelo Buda estava seu próprio filho, Rahula. 
Três marcas são características do budismo; consideradas em conjunto, o distinguem de todas as outras religiões: as noções de impermanência, ou seja, todos os fenômenos são efêmeros, sujeitos à contínua transformação; insubstancialidade, isto é, os seres não possuem qualquer núcleo estável que determine sua natureza, mas são uma complexa e sempre cambiante teia de relações; e nirvana, o estado de extinção dos sofrimentos que se manifesta quando o homem compreende profundamente a impermanência e a insubstancialidade, e se libera de sua ilusão de “eu” e dos apegos egoístas que ela engendra. Buda superou o samsara, o mundo das aparências, e encontrou o nirvana em sua iluminação sob a figueira. Segundo a doutrina, ele atingiu o para-nirvana, ou nirvana pleno, após sua morte, ocorrida quando tinha mais de 80 anos. Ela foi apressada pela ingestão, supostamente voluntária, de alimentos deteriorados, que lhe teriam sido oferecidos pelo ferreiro Cunda, na aldeia de Pava. 
Ele se preparou para morrer banhando-se pela última vez e esperou a consumação deitado sobre o lado direito, com a cabeça voltada para o norte e o rosto virado para o poente. Conforme a tradição, seu corpo foi cremado pelo discípulo Aranda e coberto com mel para que nenhuma partícula se perdesse. Uma terça parte foi entregue aos nagas, outra aos deuses e a terceira aos homens. Como ocorreu com praticamente todas as grandes religiões, o budismo sofreu metamorfoses e divisões após a morte de seu fundador. 
O principal cisma, que tomou forma apenas 140 anos depois, foi entre a corrente Hinayana (Pequeno Veículo) e a Mahayana (Grande Veículo). Essas denominações vêm de uma pergunta metafórica: no caso de um incêndio, como um homem deveria se salvar? Num pequeno carro puxado por uma cabra, que Ihe asseguraria a salvação individual, ou num grande carro de bois, que Ihe permitiria levar muitos outros junto? 
A corrente Mahayana respondeu com a segunda alternativa e se tornou amplamente predominante. Dela resultaram, através da fusão com numerosas tradições religiosas orientais, escolas tão diversas quanto o austero e filosófico zen japonês (derivado do chan chinês) e o exuberante e mitológico lamaísmo tibetano. 
budismo tem expressão muito reduzida na Índia contemporânea, alcançando apenas 2 por cento da população, mas tornou-se a principal religião do Extremo Oriente, com mais de 250 milhões de adeptos espalhados por países como o Nepal, Tibete, Butão, Sikkim, China, Mongólia, Birmânia, Tailândia. Laos, Kampuchea, Vietnã, Sri Lanka, Coréia e Japão — além de provocar interesse cada vez maior no Ocidente. 
Ao contrário do cristianismo, o budismo não acredita num deus criador: os infinitos universos de sua cosmologia passariam por um processo também infinito de destruição e criação, sem começo nem fim, regido por uma lei eterna. Os seres que povoam cada um desses universos — e que podem assumir a forma de animais, homens, deuses, demônios etc.— estariam sujeitos a sucessivos nascimentos e mortes. 
Não há propriamente uma alma imortal: são as ações, palavras e pensamentos de uma existência que tecem a trama (karma) que determina a existência futura. Esse processo é considerado extremamente doloroso, e escapar dele deve ser o fim visado por todos os seres. Eles têm a oportunidade rara de consegui-lo apenas quando renascem na forma humana e conseguem desapegar-se totalmente do mundo ilusório. Libertar-se é atingir o nirvana, a cessação de todos os desejos, a suprema e eterna paz.

Brasileiro, budista e monge
O maior especialista em budismo no Brasil tem o nome impecavelmente ocidental de Ricardo MárioGonçalves — o que talvez ensine algo sobre a difusão da doutrina budista para além da Ásia e de suas muitas etnias. Mas foi em contato com amigos japoneses em São Paulo que, ainda estudante de ginásio, Ricardo ouviu falar pela primeira vez em Buda. “
Decidi então empregar minha vida em descobrir o que era”, lembra ele. Depois de freqüentar durante dez anos um templo zen-budista no bairro paulistano da Liberdade, centro da colônia japonesa, foi ao Japão, onde ficou um ano estudando numa escola budista de orientação esotérica. “
De volta ao Brasil”, conta Ricardo, “percebi que o esoterismo não seria corretamente compreendido aqui, a não ser por uma minoria.” Por isso, aproximou-se da Escola da Terra Pura, uma corrente bem mais popular do budismo. Numa segunda viagem ao Japão, em 1981, foi ordenado monge. 
Cinco anos mais tarde, de novo no Japão, recebeu o título de mestre e a patente de missionário — a primeira conferida a um ocidental pelo ramo da Terra Pura. Como monge, poucas coisas distinguem o dia-a-dia de Ricardo do de uma pessoa comum. 
Casado, divide seu tempo entre a Universidade de São Paulo, onde leciona História, e a atividade num templo budista da zona sul da cidade, onde dirige o setor de pesquisas sobre o budismo. Ali ele reúne os interessados no estudo de textos clássicos indianos, chineses e japoneses. Ricardo edita, enfim, um jornal em português e japonês dirigido à comunidade dos seguidores da corrente da Terra Pura.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011



Tudo que vejo são tolos
Empilhando mais e mais alto ouro e grãos
Ficando bêbados e comendo criaturas
Imaginando que estão se dando bem
Inconscientes do abismo do Inferno
Buscando apenas a felicidade dos Céus
Mas com karmas como Vipula*

Como podem escapar do desastre?

Subitamente quando o homem rico morrer
As pessoas se acotovelam ao redor se debulhando em lágrimas
Então contratam algum monge para cantar
Apesar de tal paga fantasmagórica ser nula
E providenciar bençãos futuras

Por que sustentar os carecas?

Melhor despertar ainda a tempo
Não crie um inferno de escuridão
Seja uma árvore que não teme vento algum
Firme e imovível pelo destino
Diga aos tolos que for encontrando por aí
Que dêem ao menos duas lidas nisto.

 Han-Shan, poeta zen do século IX (“Poemas Reunidos de Han Shan“)

* Vipula é o nome de uma montanha na Índia. Quer dizer “enorme” em sânscrito e era com frequência usada pelo Buda como uma metáfora para coisas sem limite aparente.

Tradução: Monge Marcos Ryokyu.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Meditar e ver

Buda não é alguém a quem você reza, ou de quem tenta conseguir algo. Tampouco um buda é alguém a quem você se curva. Um buda simplesmente é uma pessoa que está acordada — nada mais nada menos. 

O Budismo não é um sistema de crença. Não versa sobre aceitar certas doutrinas nem acreditar num conjunto de reivindicações ou princípios. Na realidade, é exatamente o oposto. Ele versa sobre examinar clara e cuidadosamente o mundo, sobre testar todas as coisas e cada ideia. 

O Budismo é sobre ver Conhecer em vez de acreditar ou esperar ou querer. Também é sobre não ter medo de examinar qualquer coisa e todas as coisas,incluindo as nossas próprias atividades.

Seja como for, precisamos examinar a própria doutrina do Buda. 

Este convidava as pessoas, em todas as ocasiões, a testá-lo. 

- Não acredite em mim porque você me vê como o seu mestre, ele disse.
- Não acredite em mim porque os outros acreditam. 
- Não acredite em nada pelo fato de o ter lido num livro. 
- Não deposite sua fé em relatos, na tradição, em boatos, nem na autoridade de líderes religiosos ou de textos. 
- Não confie na simples lógica, nem na inferência, nem nas aparências, nem na especulação.

O Buda enfatizou repetidamente a impossibilidade de algum dia chegar à Verdade desistindo de sua própria autoridade e seguindo a opinião dos outros. Esse caminho só conduzirá a uma opinião, sua ou de outra pessoa. O Buda encorajava as pessoas a saber por vocês mesmas que certas coisas são nocivas e erradas. E quando vocês fizerem isso, então desistirão delas. E quando souberem por si mesmas que certas coisas são saudáveis e boas, então as aceitarão e seguirão.

A mensagem é sempre examinar e ver por si mesmo. Quando você vir por si mesmo oque é verdadeiro — e esse é realmente o único modo pelo qual você pode conhecer genuinamente qualquer coisa — quando isso acontecer, aceite—o. Até ai, apenas deixede lado o julgamento e a critica.O ponto central do Budismo é apenas ver. Isso é tudo.

BUDISMO CLARO E SIMPLES | Steve Hagen | Editora Pensamento

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Charlotte Joko Beck - Sempre Zen (budismo)

Minha cadela não se preocupa com o significado da vida. Ela pode se preocupar em receber ou não a refeição pela manhã, mas não se senta preocupada em conseguir ou não a realização, a libertação, a iluminação. Desde que receba um pouco de comida e afeto, a vida lhe corre bem. Porém nós, seres humanos, não somos comoos cães. Temos mentes centradas em si mesmas que nos remetem a muitos problemas. 

Se não entendermos o equívoco em nossa forma de pensar, nossa autopercepção, que é nossa maior bênção, torna-se também nossa perdição.Todos nós acreditamos que, em certa medida, a vida é difícil, intrigante e opressiva. Mesmo quando tudo corre bem, como acontece por certo tempo, preocupamo-nos que ela não se mantenha assim. 

Dependendo de nossa história pessoal, chegamos à idade adulta tendo muitos sentimentos desencontrados a respeito da vida. Se eu lhes dissesse que sua vida já é perfeita, completa e inteira exatamente do jeito que está, vocês pensariam que estou maluca. Ninguém acredita que sua vida é perfeita. No entanto, existe no íntimo de cada um uma dimensão que sabe que somos ilimitados, infinitos. 

Vemo-nos presos à contradição de encontrar a vida em meio a um quebra-cabeça muito desconcertante, capaz de nos causar muitos sofrimentos; ao mesmo tempo, temos uma vaga consciência da natureza ilimitada, infinita da vida. Desta maneira, começamos a procurar uma resposta a esse enigma.

A primeira forma de procurar é buscar soluções fora de nós mesmos. No começo, pode acontecer num nível bastante comum. Existem muitas pessoas no mundo que acreditam que se tivessem um carro maior, uma casa mais bonita, férias melhores, umpatrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, suas vidas seriam muito melhores. Não há quem não pense assim. 

Lentamente, vamos descartando os "se ao menos", essas coisas que nos fariam viver melhor. "Se ao menos eu tivesse isto, isso ou aquilo, então minha vida seria outra." Na prática, todos estão com alguns desses" se ao menos", na cabeça em algum momento, contudo aos poucos essas ideias vãose desgastando. Primeiro, as mais grosseiras. 

Depois nossa busca dirige-se a níveis mais sutis. Por fim, na procura pelo elemento externo a nós mesmos que, em nossaexpectativa, irá nos completar, voltamo-nos para uma disciplina espiritual. Infelizmente, nossa tendência é considerar com a perspectiva anterior essa nova possibilidade. Muitas das pessoas não crêem que a resposta esteja num carro mais novo, mas em alcançar a iluminação. Conseguiramum novo recurso, um novo "se ao menos". "Se ao menos eu tivesse condição deentender do que se trata a compreensão, seria feliz." "Se ao menos eu tivesse umapequena experiência de iluminação, seria feliz." 

Ao iniciarmos uma prática como o zen, trazemos nossas noções habituais de estar chegando em algum lugar, de alcançaralguma coisa -no caso, a iluminação - podendo a partir de então comer todos os docinhos que antes nos tinham sido proibidos.Toda a nossa vida consiste neste pequeno indivíduo, olhando à sua volta em buscade objetos. No entanto, se você olha algo que é limitado -como o são o corpo e amente -e procura alguma coisa fora de si, esta coisa torna-se um objeto e tambémdeve ser limitado. Assim, existe alguma coisa limitada procurando algo limitado e, nofinal, só fica maior aquela velha loucura que o vem tornando uma- pessoa tão infeliz.Todos passam anos a fio consolidando uma visão condicionada da vida. Existe o"eu" e existe essa "coisa" aí adiante que ou me fere ou me agrada. Nossa tendência élevar a vida de modo a tentar evitar tudo o que nos magoe ou nos desagrade,reparando nos objetos, nas pessoas ou situações que, a nosso ver, parecem nos proporcionar dor ou prazer; evitaremos uns e perseguiremos outros. Sem exceção,todos nós fazemos isso. Mantemo-nos distantes de nossa vida, olhando-a, analisando-a, julgando-a, buscando respostas para perguntas como "O que ganho com isso? Vouter prazer ou conforto, ou será preciso que eu fuja?". Fazemos esse questionamento de manhã à noite. Por trás de nossas fachadas agradáveis e amistosas ferve um constrangimento considerável. Se eu pudesse raspar o verniz e ir um pouco mais fundo do que a superfície de qualquer pessoa, encontraria medo, dor e uma ansiedade desvairada. Todos temos métodos para encobrir tais sentimentos. Comemos demais,bebemos demais, trabalhamos demais; assistimos à televisão demais. Estamos sempre fazendo algo para encobrir nossa ansiedade existencial básica. Algumas pessoas vivem dessa forma até o final de seus dias. Essa situação piora conforme o tempo vai passando. 0 que talvez não seja tão ruim quando você tem 25 anos parecerá terrível quando chegar aos cinqüenta. Todos conhecemos aquelas pessoasque já morreram e se esqueceram de deitar-se; elas têm uma mentalidade tão contraída em seus pontos de vista limitados, que a convivência é muito penosa tanto para quem está à sua volta como para elas mesmas. A flexibilidade, a alegria e o fluir da vida já se foram. Essa possibilidade tão sombria ameaça a todos nós a menos que acordemos para o fato de ser necessário trabalhar nossa própria vida, praticar. Épreciso que enxerguemos a miragem de que existe um "eu" destacado de um "aquilo".Nossa prática consiste em anular essa distância. Apenas no momento em que nós e os objetos nos tornarmos um, é que poderemos enxergar o que é nossa vida.A iluminação não é algo que se atinge. É a ausência de alguma coisa. A vida inteira, a pessoa vai atrás de algo, perseguindo suas metas. A iluminação está em deixar tudo isso de lado. Entretanto, falar sobre ela não adianta muito. A prática precisa ser executada por cada um. Não há o que a substitua. Podemos ler a seu respeito durante mil anos e não adiantará de nada para nós. É preciso que todos nós pratiquemos, e temos de fazer com todo nosso empenho pelo resto da vida.O que de fato queremos é uma vida natural. Nossas vidas são tão artificiais quer realizar uma prática como a do zen, no começo, é bastante difícil. Porém, assim que começarmos a vislumbrar que o problema da vida não é algo externo a nós, teremos começado a percorrer o caminho. Quando o despertar se inicia, quando começamos aperceber que a vida pode ser mais aberta e alegre do que até então pensáramos ser possível, queremos praticar.Entramos numa disciplina como a prática zen para podermos aprender a viver de modo lúcido. O zen tem quase mil anos e seus defeitos já foram corrigidos; embora não seja fácil, não é insano. É sensato e muito prático. Diz respeito à vida cotidiana.Refere-se a trabalhar melhor no escritório, a criar melhor as crianças, e estabelecer relacionamentos melhores. Levar uma vida mais lúcida e satisfatória deve decorrer de uma prática equilibrada e lúcida. O que desejamos fazer é encontrar uma maneira detrabalhar com a insanidade elementar que existe em função de nossa cegueira.É preciso coragem para se sentar bem. O zen não é uma disciplina para todos.Precisamos estar dispostos afazer algo que não é fácil. Se o fizermos com paciência e perseverança, com a orientação de um bom instrutor, então, aos poucos, nossa vidairá se aquietar, ficar mais equilibrada. Nossas emoções não serão mais tão dominadoras. Enquanto sentamos, descobrimos que a primeira coisa, a mais elementar, para trabalhar, é nossa mente caótica, ocupada. Estamos todos enredados num pensar frenético e o problema da prática está em começar a trazer esse pensamento para a claridade e o equilíbrio. Quando a mente fica limpa, clara,equilibrada, e não mais prisioneira dos objetos, então poderá haver uma abertura e,por um instante, nos , daremos conta de quem somos, na verdade.Contudo, sentar não é algo que praticamos durante um ou dois anos com a ideia de dominar a questão. Sentar é algo que praticamos a vida inteira. Não há limites para aabertura possível ao ser humano. Eventualmente percebemos que somos a base ilimitada e incontida do universo. Para o resto da vida, nossa incumbência será abrirmo-nos cada vez mais a essa imensidão e expressá-la. Quanto maior for nosso contato com essa realidade, mais aumentará nossa compaixão pelos outros, maiores serão as alterações em nossa vida cotidiana. Viveremos, trabalharemos e nos relacionaremos de modo diferente com as pessoas. O zen é um estudo para a vida toda. Não é só sentar-se numa almofada durante trinta ou quarenta minutos diários.Toda nossa vida torna-se uma prática, vinte e quatro horas por dia.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Trabalhando Duro



Um estudante foi ao seu professor e disse fervorosamente:

- Eu estou ansioso para entender seus ensinamentos e atingir a Iluminação!
- Quanto tempo vai demorar para eu obter este prêmio e dominar este conhecimento?

A resposta do professor foi casual:

- Uns dez anos...

Impacientemente, o estudante completou:

- Mas eu quero entender todos os segredos mais rápido do que isto! Vou trabalhar duro! Vou praticar todo o dia, estudar e decorar todos os sutras, farei isso dez ou mais horas por dia!!
- Neste caso, em quanto tempo chegarei ao objetivo?

O professor pensou um pouco e disse suavemente:

- Vinte anos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Garotas


Tanzan e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta.

Uma pesada chuva ainda caía, dificultando a caminhada. Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida com um quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a intercessão.

- Venha, menina, disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus braços, ele a carregou atravessando o lamaçal.

Ekido não falou nada até aquela noite quando eles atingiram o alojamento do Templo. Então ele não mais se conteve e disse:

- Nós monges não nos aproximamos de mulheres," ele disse a Tanzan, "especialmente as jovens e belas. Isto é perigoso. Por que fez aquilo?

- Eu deixei a garota lá," disse Tanzan ".

"Você ainda a está carregando?"

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ouvindo o Darma Txt 01

Voz de  Jota Carino

Uma vida inútil?



Um bondoso fazendeiro tornou-se velho demais para poder trabalhar nos campos. Assim ele passava seus dias apenas sentado na varanda, feliz em observar a natureza. Seu filho era uma pessoa insensível e ambiciosa que não gostava de dar duro. Mas, ainda trabalhando na fazenda, podia observar seu pai de vez em quando ao longe.

- Ele é inútil," o filho falou para si mesmo, agastado, "ele não faz nada!"

Um dia o filho ficou tão frustado por ver seu pai numa vida que ele considerava absurda,que construiu um caixão de madeira, arrastou-o até a varanda e disse insensivelmente parao seu pai entrar nele. 

Sem dizer uma palavra, o pai deitou-se no caixão. Após fechar a tampa, o filho arrastou o caixão até as fronteiras da fazenda onde existia um grande abismo.

Quando ele se aproximou da beira, ouviu uma suave batida na tampa, de dentro do caixão.

Ele abriu-o. Ainda deitado lá pacificamente, o pai olhou para seu filho.

- Sei que você vai lançar-me no abismo, mas antes de fazer isso posso lhe sugerir uma coisa?

- O que é? disse o filho, confuso e algo constrangido por ver seu pai tão calmo.

- Lance-me ao abismo, se quiser," disse o pai, "mas salve este bom caixão de madeira.

Seus filhos podem querer usá-lo um dia com você...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sem motivo


Certo dia, três amigos passeavam e viram um homem no cume de um pequeno monte, sentado. Curiosos sobre o que estaria o homem fazendo, foram até ele, usando a trilha na encosta.

Chegando lá, o primeiro disse:
- Olá, está esperando um amigo?
- Não... respondeu o outro.

O segundo homem replicou: - Então está respirando o ar puro!
- Não...disse o estranho.

O terceiro amigo disse:
- Já sei! Você estava passando e resolveu olhar este belo cenário.

- Não, na verdade... - repetiu o homem.
Os três amigos então exclamaram ao mesmo tempo, estupefatos:
- Mas então, o que faz aqui?!

 O homem disse com um suave sorriso:
- Apenas ESTOU aqui...

(Contos Budistas)

sábado, 5 de novembro de 2011

O Limite e a Tolerância


Introdução

Tudo que é "perfeito" tem limites impostos pelo seu próprio ser ou estado de "perfeição": um ser que manifeste as suas qualidades não o pode fazer sempre em todos os aspectos. O imperfeito, além de não manifestar sua potencialidade, quando o faz, pode fazê-lo de modo a não preencher as características do seu ser.
Homem-Lâmpada / Lightbulb-Man


O homem é um ser social e possui uma individualidade. Não é perfeito e portanto, sob diversos aspectos, limitado. Precisa viver consigo mesmo e com os outros, porém, as leis pessoais não são as mesmas que as sociais. Pelo valor que é a individualidade, alguns homens são melhores em certos aspectos; outros, em outros, e assim a sociedade se completa e a vida social é possível. Mas a moeda tem outra face e o fato das pessoas diferirem em tantos aspectos pode gerar atritos de valores. Os limites das pessoas também são diferentes. Neste ponto começa o limite entre o pessoal e o social. Existem situações que podem ser ignoradas, passíveis de serem aceitas, em prol da sociedade, do bem comum. Mas o limite não é fixo, pode variar muito: toleramos algo numa manhã, mas se o mesmo assunto for apresentado à noite..., passa dos limites. Quereríamos que este limite fosse mais elástico, e de certo modo o é. O limite da tolerância tem por um lado a manutenção da individualidade e por outro a inclusão do individual no social. Se isto não ocorrer, alguns perdem sua individualidade e outros são excluídos e preferem se isolar do convívio social.
A volta do homem palito

Neste conviver, o homem percebe que seus sonhos nem sempre são realidades quando se analisa na perspectiva do tempo. A certeza da morte o incomoda, seja pelo desejo de realizar-se, de deixar uma contribuição para a sociedade, ou pelo nihilismo teórico-prático em que muitos podem mergulhar.

Nossa liberdade é o preço da nossa existência, segundo Rodríguez-Rosado (1976). Existimos como seres humanos livres. Se não tivéssemos liberdade, nossa existência com certeza não seria da mesma forma. Seríamos outros seres, incapazes de optar, pois nosso protocolo seria rígido. Ao optar, por exemplo, entre ficar em casa estudando ou sair com os amigos para descansar, em qualquer um dos casos, mostraremos que somos livres - e responsáveis -, mas pagaremos o preço da nossa livre decisão. Cada ser humano pode optar, e ao escolher exclui algo. E todas as nossas ações podem ser vistas por terceiros, que nos rotulam em função das nossas ações. Existimos e somos, mas nem sempre gostamos de ser rotulados pelos nossos defeitos, modos etc. Algumas pessoas possuem defeitos mais evidentes, que se manifestam no convívio social. A semelhança de uma verruga negra e grande na ponta do nariz; caso estivesse escondida em outra parte do corpo, chamaria menos a atenção. Assim são nossos defeitos. Muitas vezes eles são evidentes, outras não. 

A mente humana por vezes tende a caricaturizar em função dos traços ou atitudes negativas daqueles que nos cercam. Melhor seria ver os aspectos positivos dos outros: é mais fácil ensinar algo do que fazer alguém esquecer alguma coisa. Assim, poderíamos afirmar que a primeira impressão é a mais forte. Mas as pessoas mudam, por conta própria ou com a ajuda de terceiros. E no processo de mudança se percebe, por um lado, um limite pessoal; por outro, uma tolerância social. No final de cada interrelação, ambas as partes são capazes de exibir um estado superior ao anterior. É sobre estes pontos que iremos tecer algumas considerações.
Post Mortem


A tolerância

A palavra tolerância provem do latim tolerantia, que por sua vez procede de tolero, e significa suportar um peso ou a constância em suportar algo. Teve no passado, e com sentido negativo, a função de designar as atitudes permissivas por parte das autoridades diante de atitudes sociais impróprias ou erradas. Hoje em dia, pode ser considerada uma virtude e se apresenta como algo positivo. Esta é uma atitude social ou individual que nos leva não somente a reconhecer nos demais o direito a ter opiniões diferentes, mas também de as difundir e manifestar pública ou privadamente.
De gatos y tolerancia

Tomás de Aquino diz que a tolerância é o mesmo que a paciência. E a paciência é justamente o bom humor ou o amor que nos faz suportar as coisas ruins ou desagradáveis. Ao tratar do tema da justiça, o Aquinate também nos indica que "a paciência - ou tolerância - é perfeita nas suas obras, no que respeita ao sofrimento dos males, em relação aos quais ela não só exclui a justa vingança, que a justiça também exclui; nem só o ódio, como a caridade; nem só a ira, como a mansidão, mas também a tristeza desordenada, raiz de todos os males que acabamos de enumerar. E por isso, é mais perfeita e maior, porque, na matéria em questão, extirpa a raiz. Mas não é, absolutamente falando, mais perfeita que as outras virtudes, porque a fortaleza não suporta os sofrimentos sem se perturbar, o que também o faz a paciência, mas também os afronta, quando necessário. Por isso, quem é forte é paciente, mas não, vice-versa. Pois a paciência é parte da fortaleza."

A diferença de abordagem, seja ela histórica ou dentro dos diferentes campos das ciências particulares, nos permite observar que dentro das humanidades, a tolerância diz respeito ao ser humano ou a sociedade, enquanto que nas ciências exatas, está baseada em leis físico-químicas e biológicas. Alguns exemplos ilustram o uso da palavra (in)tolerância ao longo dos séculos.

No final do séc. XVI, muito se falou de tolerância religiosa, eclesiástica ou teológica. Hoje em dia também se tolera - pacientemente - em pontos que não são essenciais de uma determinada doutrina mesmo que seja em detrimento da mesma, mas para uma melhor convivência social.

No passado (desde meados do séc. XIX), maison de tolérance era a casa ou zona de prostituição: muitos toleram esses locais, procurando evitar, assim, a disseminação desses costumes em toda sociedade.

Na medicina, a palavra "tolerância" é utilizada para significar a aptidão do organismo para suportar a ação de um medicamento, um agente químico ou físico. Desta forma, as diferentes espécies toleram de diferentes modos os microrganismos: alguns adoecem e morrem, a outros nada ocorre. Os níveis de tolerância à radiação têm tal limite... Tecnicamente, a tolerância é o limite do desvio admitido dentro das características exatas de um objeto fabricado ou de um produto e as características previstas. Não são todos que suportam os medicamentos, e algo que está fora das normas algumas vezes pode ser tolerado. E assim pode se falar também de suportar fisicamente ou mentalmente algo pesado; em tolerar erros gramaticais; assim, podemos descer um degrau, recebendo o conhecimento neste nível, o qual é mais tolerável; algo pode ser tolerável, inclusive indiferente, aceitável: "o almoço foi bastante tolerável". Até mesmo dentro da ecologia Odum (1953) no seu livro Fundamentos de Ecologia coloca exemplos de limites de tolerância dentro da natureza. 

Dentro das leis físicas, o universo tende a se desorganizar. Por outro lado, tudo que está vivo, tende a se organizar. Mas o homem, sendo livre, pode "ajudar" a desorganizar o mundo. Como num processo de tentativa e erro, as pessoas buscam soluções para viver consigo mesmo e com as demais. Às vezes parece que temos na mão um saco cheio de bolas, que tentamos arremessar e colocá-las dentro de um buraco distante. De modo simplista, dizemos que podemos acertar ou não, mas na prática, as coisas não ocorrem bem assim. O acerto aparece como uma vitória. Foram centenas de arremessos, e um acerto! Tolerar é aceitar os limites, é na realidade ser paciente. A paciência é justamente aceitar o desagradável, com bom humor. 

Também na literatura universal, existem alguns provérbios que nos recordam a tolerância.
Tolérance n’est pas quittance, que poderíamos traduzir por: "Tolerância não é liberdade total...". Numa pequena cidade do interior, um deficiente físico, sem pernas, perambulava pela cidade com auxílio das duas mãos e o apoio do tronco. Durante anos, no seu trajeto, era debochado por um homem que dizia: - Vai gastar o... Um dia ele perdeu a paciência e matou o importunador. Na justiça, o aleijado foi duramente atacado, e tido como assassino cruel. O advogado, ao iniciar a defesa, falou durante dez minutos elogiando a qualidade de cada membro do júri, até que o juiz interrompeu: - Se o senhor não iniciar a defesa, não permitirei que prossiga. Sabiamente, o advogado respondeu: - Meritíssimo, se o senhor não agüentou dez minutos de elogios, imagine a situação do réu que suportou anos de insultos... Nestes casos, pode valer o provérbio: "Não seja intolerante a menos que você se confronte com a intolerância".

Quanto à tolerância, costumamos atuar, como diz o provérbio, "com dois pesos e duas medidas": tendemos a ser muito complacentes com os desvios de nossa conduta (e isto quando os reconhecemos...) e implacáveis com os outros: não lhes damos o tempo necessário para mudar. De fato, abandonar um mau costume e atuar de modo completamente oposto é uma tarefa que exige esforço e pode durar meses ou anos... E, quanto aos outros, exigimos que tudo ocorra no mesmo instante, esquecendo que as coisas têm seu ritmo natural. Um feijão demora para germinar, crescer, florir, dar a vagem... e nós às vezes somos semelhantes às crianças, que deixam o feijão no algodão do pires com água, e no dia seguinte se decepcionam com a ausência de vagens. Para viver, deixar viver.

O que leva duas pessoas a entrarem em discórdia? A invasão do direito alheio, o ultrapassar o limite de tolerância, a incapacidade de compreensão mútua ou própria, a falta de empatia, a nossa própria natureza, o nosso temperamento. Somos limitados, e isto se manifesta também no modo tosco com que nos relacionamos muitas vezes com as pessoas.


A distância que existe entre as pessoas, em parte é criada por cada um. Às vezes percebemos que com alguns, já num primeiro momento, se consegue chegar perto, e falar sem gritar ou mandar mensageiros, mas nem sempre é assim. É preciso usar a inteligência, para encontrar o caminho da comunicação entre as pessoas. Inteligência e vontade de querer se comunicar... ou não.


Os limites

Nossas limitações são patentes. Não somos o que queremos, não fazemos tudo que sonhamos, não temos o dom de estar onde desejamos. Dentro destes limites é que nos movemos. Conhecer os limites pessoais e os dos outros - pois somos seres que não se repetem - é uma tarefa que dura toda a vida. O limite também não é algo estático, as pessoas mudam. Logo, o sistema de comunicação entre as pessoas é algo dinâmico e tem suas "leis" próprias, que cabe a cada um descobrir em cada momento. Em vez de gastar tempo reclamando que não existe comunicação, poderemos empregá-lo, verificando como estabelecer esta relação.
Por outro lado, quando as pessoas se aproximam, uma tem em relação a outra uma expectativa. Na prática existe também um pré-conceito, mas por ora, vale a pena refletir sobre a expectativa.


Expectativa

Nossas atividades estão inseridas no contexto da expectativa. Spes em latim, significa tanto esperança como expectativa de algo feliz. Um novo emprego, um novo trabalho, uma nova amizade geram expectativas. Alguns defendem a postura de não ter expectativa de nada, e assim, o que ocorrer de bom nos fará felizes. Mas isto não condiz com a etimologia da palavra. Temos esperança de que se agirmos de um modo, seremos felizes. Se nos relacionamos com alguém, é porque precisamos deste alguém, ou gostamos de estar com ele.
Quando um aluno se aproxima do professor para pedir um estágio, ambos têm uma expectativa. Explicitar estas expectativas um ao outro, evita a decepção. O combinado não sai caro, reza o ditado popular. Desta forma se evitaria a conhecida antropofagia... 

A antropofagia nos une, quando os interesses pessoais têm a possibilidade de serem supridos pelas habilidades alheias. Agumas vezes o aluno apenas quer uma bolsa, ou aprender uma técnica, publicar um trabalho, decidir sua vida profissional; ou talvez ele esteja querendo ficar no estágio uma semana, um mês, um ano... sua vida toda. E como iremos saber se não perguntarmos? O professor também espera algo do aluno. Às vezes de modo possessivo, outras vezes de modo diferente, como mão de obra. Pode pensar também num talento para vida acadêmica, e se por um lado vê um discípulo, não pode deixar de encobrir as dificuldades pelas quais irá passar. Mas isto tudo, não passa de dúvidas. Um tem expectativa do outro, e nada mais lógico e razoável que exista um diálogo entre ambos, antes de iniciar as atividades. Alguém tem expectativa de alguém, mas ninguém não tem expectativa de ninguém... E os outros são para nós alguém... ou ninguém?!

Compreensão

Compreender cada um como é, acaba sendo o melhor modo de interagir. As vezes as pessoas precisam de peixe, outras vezes, precisam de trabalho educativo sobre a pesca, e sempre atenção externa de outras pessoas. Todos precisamos de cúmplices em nossas atividades. 

Compreender, querer, perdoar. Esta tríade resume bem o relacionamento humano ideal. Da cultura popular somos capazes de lembrar: "Deus perdoa sempre, os homens de vez em quando, a natureza nunca" ou "Errar é humano, perdoar é divino". O perdão absoluto é divino. Nós podemos ter o ideal de perdoar, mas nem sempre conseguimos, como na terrível fórmula: "Perdoar, eu perdôo; mas esquecer, não esqueço...".

O erro das pessoas leva às vezes a conseqüências sérias para um perdão imediato. A reação pessoal ou social contra aquele que errou, pode ser irasciva, vingativa, punitiva. Mas o que se quer mesmo, é que aquele que errou, e com isto de certa forma agrediu, reconheça e mude. Talvez precise sofrer as conseqüências do seu ato para merecer o perdão. Não reconhecer o próprio erro ou de certa forma encobri-lo já consiste em parte da pena, por não se adequar com a verdade. Perdoar antes porém, abre uma porta honrosa para o agressor, que não precisa gastar tempo se justificando. Aqui vale mais uma definição do ser humano: aquele que é capaz de se desculpar e justificar em todos os seus atos, mas que ficaria envergonhado de manifestar esta desculpa ou justificativa em voz alta para outros. Sim, as desculpas que damos a nós mesmos para fazer coisas erradas, não convencem... 

O castigo piora o ruim e melhora o bom, e como o bom deve ser melhorado, não se deve evitar o castigo. Mas, o ruim? Não merece o castigo, ou além do castigo precisa de algo para melhorar? Talvez precise também da compreensão... As pessoas aprendem também pelos erros, próprios ou alheios, históricos ou do presente. Quanto maior o erro, piores as conseqüências, e menores as chances de errar de novo. A evidência do erro para a sociedade mexe com os brios daquele que errou. A compreensão não pode ser confundida com a cumplicidade no erro; a cumplicidade está associada ao desejo de ser solidário com a pessoa que errou e disposição de ajuda para reverter esta situação. Esta aventura de compreender implica num compromisso. O amigo, é aquela pessoa que apesar de conhecermos perfeitamente como é, continua sendo amigo ou: "O amigo é o amigo do amigo". 

O perdão, pode ser imediato ou não, com consequências ou sem elas. Ora, o tempo é apenas uma convenção, mas nem por isto deixa de existir... As pessoas, como o bom vinho, melhoram com o tempo ou, para continuar remetendo a provérbios: "O tempo é o melhor remédio". As pessoas, como já dissemos, buscam sempre uma justificativa para os seus atos, e também para perdoar. Em todos estes casos, é difícil ter a medida, pois a pena deve ser proporcional a ofensa, e o ofendido mostra que é grande, perdoando. As leis positivas neste sentido são como que a segurança da sociedade, na tentativa de se estabelecer uma medida; um verdadeiro protocolo social a ser atingido.

Sintonia

Uma rádio que está sintonizada, pode ser escutada sem ruídos, interferências. Escutar é um ato humano que reflete uma disposição interior. Peter Drucker dizia que "o verdadeiro comunicador é o receptor". Escutar é permitir o diálogo. A prática medieval de dialogar num debate, merece ser lembrada. Enquanto um falava, o outro era obrigado a escutar, pois antes de colocar seu ponto de vista, era obrigado a repetir a idéia do primeiro - com sua expressa aprovação - antes de colocar a sua resposta. Alguns têm o defeito quase físico de não escutar e a partir deste ponto seguem as discórdias.

Essencial, importante e acidental

Uma classificação das realidades pode incluir estas três divisões: essencial, importante e acidental. Talvez exista desacordo no que incluir em cada item. Pensar antes de discutir se aquilo é essencial ou importante ou acidental, em muito reduziria as discussões. Usar a inteligência para identificar exatamente onde se pretende chegar, também é uma forma de diminuir os problemas. Seja na via direta, não "criando" problemas, seja indiretamente, pela compreensão das realidades limitadas.
"Humildade não faz mal" - esta máxima popular, ajuda a retratar mais uma vez a dificuldade que temos de enxergar o mundo real. Por um lado, temos esta deficiência, e por outro temos a teimosia de justificar os atos errados. Se o diálogo amigo nos faz ver o erro, nada melhor que reconhecer. A humildade é a verdade... e a humildade não faz mal!
 

Ignorância e preconceito

As pessoas muitas vezes não atuam de modo errado por má fé, e sim por ignorância. Com certeza fariam de modo distinto, se soubessem como fazer. Esta tarefa não tem fim, e questionar-se sobre o empenho pessoal de diminuir o nível de ignorância, nos faria no mínimo reconhecedores da dívida social que carregamos. Aprendemos tanto, e por este motivo somos capazes de questionar as deficiências. Não são os professores e pais os únicos interessados. Ninguém dá o que não tem, e por isto sempre temos algo que dar a outrem, e assim diminuir a ignorância.
Outro ponto é o preconceito... O preconceito gera um prejuízo (e também um prejuízo). Uma idéia pré-concebida cria uma barreira para compreender a realidade. Uma pessoa que não queira ouvir, ver ou escutar, tem muitas vezes o preconceito de não aceitar que os outros possam pensar de modo diferente.


Considerações finais

A incapacidade pessoal provada, leva a ressaltar os possíveis limites alheios em vez de reconhecer os próprios.
No convívio social, a tolerância com os demais, clama por uma interação. Ou se ajuda, ou se atrapalha. A indiferença explica mas não resolve. 

Mas a quem ajudar? E como ajudar? Castiga o bom e ele melhorará, castiga o ruim e ele piorará. Ou É melhor ensinar a pescar que dar o peixe. Como resolver situações pontuais, sem levar em conta o princípio da subsidiariedade? Se ajuda quem precisa, até que ela tenha condições de independência para aquele tipo de ajuda. Assim se respeita a autonomia, se exerce a autoridade, se compreende o verdadeiro valor da humildade.

As crianças mimadas representam um problema para a sociedade. As pessoas precisam de afetividade, mas mimar é dar mais do que elas realmente precisam. Com certeza, a tolerância e sua medida requerem um salutar e apaixonante exercício de análise e síntese. Esta é a postura de quem quer simplificar as coisas para ter o tempo livre, ou o ócio tão necessário em nossos dias.

Tolerância zero, é um tipo de lei social, que não permite o erro sem punição. Isto é levar em conta, que as pessoas são boas... Castiga o bom e ele irá melhorar... Mas o homem não é bom por natureza. Ele pode se fazer bom, se tem disposição de ser, pois o homem é um ser axiotrópico. 

Não ter tolerância com qualquer tipo de erro, de certa forma ajuda a resgatar o que é próprio da personalidade humana: participação, unicidade, autonomia, protagonismo, liberdade, responsabilidade, consciência, silêncio, provisoriedade e religião. Höffner (1983). Cada uma das características do ser humano poderiam ser exploradas neste estudo, mas o protagonismo talvez seja o que mais atenção mereça. Somos sujeitos do nosso pensar, agir e omitir. Nossos atos assumem um caráter irrevogável do nosso eu. Podemos arrepender-nos, mas não nos desfazer nossos atos. E numa sociedade onde tudo é socialmente aceito, tudo acaba sendo tolerado. As pessoas perdem a noção do que é certo ou errado. A inteligência deixa de discernir, e a vontade fica fraca para agir. As pessoas prezam o que lhes é caro, e o dinheiro é caro a todos. Assim multar é uma forma de obrigar as pessoas a refletirem sobre si mesmas e a sociedade. Isto não é um direito, é uma tolerância. 

Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive. Aprender a observar a realidade do ser pessoal e do ser social é a melhor forma de compreender o limite que existe nas coisas e nas pessoas. Caso contrário, gastar-se-ia tempo moendo água, encontrando defeitos onde existem apenas características. Com certeza assim, seremos mais tolerantes com os outros e conosco próprios.

Para finalizar, vale a pena recordar os ensinamentos de Sócrates, recolhidos por Reale & Antiseri (1990) "A felicidade não pode vir das coisas exteriores, do corpo, mas somente da alma, porque esta e só esta é a sua essência. E a alma é feliz quando é ordenada, ou seja, virtuosa. Diz Sócrates: Para mim quem é virtuoso, seja homem ou mulher, é feliz, ao passo que o injusto e malvado é infeliz. Assim como a doença e a dor física são desordens do corpo, a saúde da alma é a ordem da alma - e esta ordem espiritual ou harmônica interior é a felicidade". 


Referências Bibliográficas
Le Petit Robert Dictionnaire de la Langue Française. [en CD-ROM] Liris Interactive : Paris, 1996.
The Oxford English Dictionary 2ed. [on CD-ROM] Oxford : Oxford Univ. Press, 1992.
Höffner, J. Christliche Gessellschaftslehre. Verlag Butzon & Becker. 1983.
Maloux, M. Dictionnaire des proverbs sentences et maximes. Paris: Larousse, 1986. p.516.
Morató, J.C.; Riu, A.M. Diccionario de filosofía en CD-ROM. Barcelona: Editorial Herder. 1996.
Reale, G.; Antiseri, D. História da filosofia. vol. I. São Paulo : Paulus, 1990. p.92.
Rodríguez-Rosado, J.J. La aventura de existir. Pamplona : Eunsa, 1976.


Os maldizentes, como os mentirosos, acabam por não merecer crédito, ainda mesmo dizendo verdades. A maledicência é uma ocupação e lenitivo para os descontentes. (Marquês de Maricá)

Rogério Lacaz-Ruiz Prof. Dr FZEA/USP roglruiz@usp.br
Anne Pierre de Oliveira Acadêmica da FMVZ/USP pierrot7@hotmail.com
Viviane Scholtz Acadêmica da FMVZ/USP vivisi@mailcity.com
Nelson Haruo Anzai Pós-Graduando da FMVZ/USP nhanzai@mailexcite.com.br